Ela ressurgiu, depois de ter sumido em meio à multidão!

 

João, que já tinha o costume de ir àquele barzinho, com os amigos, aos sábados, agora passou a encarar aquele compromisso quase que como uma obrigação. Isso, porque em uma das idas ao barzinho, num sábado, ele viu aquela moça subindo a rua. Ela chamou a sua atenção. Como já disse antes, ela era magra, não esquelética. Tinha um corpo bonito, pelo que parecia. Os cabelos, cortados retos na altura dos ombros... Ah, e tinha os tornozelos, as pernas torneadas, pelo que ele se lembrava... Mas ela havia sumido em meio à multidão, quando o garçom chegou, no exato momento em que ela se aproximava, para oferecer uma cerveja. Foi naquele exato momento que ele perdeu a oportunidade de ver o rosto dela, tentar reconhecê-la, quem sabe.

E a partir daquele sábado, sonhou com a moça, algumas noites. Chegou até a “ver” quem era, mas quando acordou, não se lembrava o nome, nem o rosto dela. A partir daquele dia foi crescendo nele a curiosidade, a vontade de vê-la novamente, quem sabe, trocar algumas palavrinhas com a moça, saber quem era ela, quem sabe...

Já haviam passado umas quatro semanas, desde o dia que a viu subir a rua. Mas não se esquecia dela e todo sábado estava lá. Na mesma mesa, na mesma posição em que estivera, ali, olhando as pessoas que começavam a subir a rua, como se a esperar alguém conhecido. Insistia na busca, apesar de algumas vezes quase desistir. Mas o sábado amanhecia e a ansiedade aumentava, e quando nem bem eram 10 horas, lá estava o João, no mesmo lugar, à espera daquela moça, que havia sumido, no meio da multidão.

E mais um sábado, mais uma espera. Já passava bem das 11 horas. Cerca de umas 11 e meia, um pouco mais e seu coração deu um salto. Lá embaixo, no início da rua, parecia ela. Uma moça, bonita, começou a subir a rua. João apertou as vistas, olhou bem... era ela sim, não poderia ser outra, não estava enganado. Desta vez não ia deixar nada distraí-lo. Fixou os olhos e foi acompanhando cada passo da moça.

Ela subia a rua distraída, olhando as vitrines, parava em frente a uma delas, analisava o que estava em oferta, seguia mais um pouco, e foi se aproximando. João viu, novamente os olhos pretos, “como jabuticabas”, pensou ele. “Difíceis de encontrar”, relembrou. A moça foi se aproximando, desta vez ele não ia perdê-la de vista. Queria saber como faria para estabelecer um contato. Mas não ia perder a oportunidade, novamente. Afinal, nas últimas semanas aquela moça povoou seus sonhos, ocupou os espaços dos seus pensamentos, não saiu um segundo sequer da sua mente...

Ele quase caiu da cadeira em que estava quando viu a moça se aproximar da entrada do bar. Ela subiu os dois lances de escada que levavam à área onde ele estava. Caminhou mais alguns passos e veio ocupar uma mesa próxima da sua. O garçom chegou para ela e parecia conhecê-la: “oi, Maria, tudo bem? O que vai querer?” “Tudo ótimo, quero um guaraná, bem gelado, com umas rodelas de laranja e gelo”, disse ela. “Como sempre”, disse o garçom. “E para comer, vai o peixinho frito?” “Não, agora não, vou esperar, depois a gente resolve o que vai querer, obrigada!”

Maria, era o nome da moça. Gostava de guaraná com rodelas de laranja, apreciava o peixe frito do lugar, mas tinha alguém. Quem seria essa pessoa que ela estava esperando? Um homem? Talvez o namorado? O marido? Não, não tinha aliança, não devia ser casada... apressou-se ele a verificar. O coração batia mais acelerado... A boca estava seca, tomou um gole da cerveja e viu chegar na entrada do bar um rapaz, alto, e Maria sorriu como se o reconhecesse. O coração do João quase parou. Quem seria aquele homem?

O rapaz se encaminhou para a mesa de Maria. Também tinha os olhos pretos como jabuticaba. Ela o recebeu com um lindo sorriso. O rapaz sentou-se ao lado dela e fez sinal ao garçom, que já foi até a mesa com uma garrafa de cerveja e um copo, sorridente. “Olá Jerônimo, tudo bem. Quando vi a Maria por aqui, sabia que você também ia aparecer. Como está a Dona Josefa? Tudo bem?” “Sim, tudo ótimo”, respondeu o rapaz e continuaram conversando. João sem entender bem. Eram amigos, parentes, namorados? O garçom os conhecia bem, pelo que podia notar...

Neste momento, os amigos de João chegaram, parece que em bando. Foram logo se sentando nas cadeiras no entorno da mesma mesa que ele, todos falando ao mesmo tempo... e logo ali, na mesa ao lado, Maria, e... Jerônimo, e um segredo que João precisava desvendar, pois a moça não deixava espaço para mais nada na sua mente...

 

Comentários

  1. Que linda narrativa!...Parte 2 já foi...Agora aguardemos a parte 3...Parabéns Sérgio!...

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