O ‘matador fake’ em Taquaraçu de Minas
Lá pelos anos de 1974/1975,
existia um matador em Minas Gerais que metia medo em algumas pessoas, só de ter seu nome citado:
Ramiro, o Bandido da Cartucheira, fazia com que pessoas se escondesse até mesmo
embaixo das camas, ante notícias de que ele rondava a região. O homem era muito
malvado, conforme as notícias da época, estampadas nos jornais. Lembro que o “Diário
da Tarde” trazia em sua primeira página, naquelas épocas, todos os dias,
notícias sobre as peripécias do bandido. Conforme as afirmações, ele “matava
para ver a cor do sangue da vítima”. Diziam à época que ele matara mais de cem,
dizimara famílias inteiras. Entrava nas casas para roubar, matava as vítimas
com tiros de cartucheira, no peito; estuprava mulheres antes de lhes tirar a
vida, era o verdadeiro terror em pessoa. Registros policiais da época, mais confiáveis,
apontam que ele teria sido responsável por cerca de 50 crimes, sendo 15
assassinatos e três estupros dentre eles. Ramiro da Cartucheira, que fora
batizado Ramiro Matildes Siqueira, nascido em Jaboticatubas, Minas Gerais
realmente foi um bandido perigoso, mas grande parte das histórias sobre ele continham
acréscimos de detalhes forjados na imaginação de quem contava e embalados pelo
medo reinante ante seu nome.
E foi no auge desta fama toda,
por volta de 1975, que meu pai, Sebastião Cunha, que vendia planos de
aposentadoria e pensão, os chamados ‘montepios’, para complementar a baixa
renda obtida no emprego de gráfico na Imprensa Oficial de Minas Gerais, teve
uma ideia: vou a Taquaraçu de Minas, onde dizem que o Bandido da Cartucheira
está, para vender uns planos de montepio. Dito isto, se armou dos apetrechos de
corretor de seguro e me chamou para ir junto com ele. Seria um sábado e domingo,
na roça, negociando alguns planos, experimentando o clima do interior e bebericando
umas cachacinhas, líquido etílico que sempre apreciamos. E fomos.
Taquaraçu, cidadezinha com cerca
de 2,5 mil a 3 mil habitantes, da Região Metropolitana de Minas Gerais, emancipada
de Caeté há pouco mais de uma década, à época, era pouco dotada de
infraestrutura. Hotel, não encontramos. Restaurante, também não. Nos ajeitamos
como deu. Comemos em um bar, próximo da praça principal e conseguimos um quarto,
que mais parecia um paiol adaptado, em uma casa um pouco afastada da praça.
Durante o dia, eu e meu pai fizemos várias visitas e conseguimos negociar três,
quatro planos de aposentadoria com comerciantes e um fazendeiro da cidade. Início
da noite, no bar, tomando uma cerveja e bebericando a cachaça do local, acompanhava
meu pai conversando com moradores. Muito falante, ele contou algumas histórias,
falou de suas aventuras e acabamos por chegar no assunto do momento: Ramiro da Cartucheira!
Alguns dos presentes, embalados
pelo álcool, diziam que não tinham medo, mas a maioria temia o aparecimento do
bandido que, segundo comentários, estaria na região. Meu pai, então, mostrou
uma garrucha que trazia consigo e iniciou uma história, inventada ali, na hora,
para atrair a atenção de todos. Disse que, na verdade, era da polícia e que
estava ali, negociando os planos de aposentadoria, mais como um disfarce, pois
sua missão era mesmo encontrar e prender o Ramiro da Cartucheira. E aí foi 'dourando a pílula', inventado histórias, contando como teria prendido vários
bandidos perigosos e que pretendia fazer o mesmo com o Ramiro. Virou o centro
das atenções. Ficamos ali até por volta das 20, 21 horas, e fomos dormir. Eu
sabia que meu pai não era policial, que era gráfico e que na verdade estava ali
era para vender seus planos de aposentadoria e ganhar alguns extras para as
despesas do mês. Mas acompanhei aquele alvoroço em torno das suas histórias, com
curiosidade, para ver no que ia dar aquilo. Mas o melhor estava para acontecer.
Próximo de onde estávamos
hospedados havia um córrego que ia desaguar no Rio Taquaraçu. Águas límpidas,
formando alguns poços no seu curso, tudo muito bucólico. As margens, de fácil
acesso. E foi para lá que meu pai se dirigiu, no meio da noite, por volta das
23h. Uns 150 metros adiante, onde o córrego formava um poço, ele se deteve e
deu continuidade à sua história. Disparou a garrucha, uma, duas vezes... gritou
algumas palavras, como “volta aqui, não foge...” e daí a pouco umas dez pessoas
estavam no local, para ver o que se passava. Meu pai contou que vira um homem
que parecia ser o Ramiro e que atirou nele e que o homem correu para o meio da
mata. Meu pai disse ainda que foi atrás e deu outro tiro, mas que o homem
conseguiu fugir. Após o susto, as pessoas foram saindo aos poucos e voltando
para casa. Ouviu-se trancas de portas, barulhos internos nas casas do entorno
e, depois tudo voltou ao normal, ou quase isto. Muitas casas, porém, mantiveram
as luzes acesas o resto da noite...
Pela manhã, no bar, tomamos café e as pessoas, curiosas, procuravam meu pai para saber como estava vestido 'o bandido', pra que lado ele correu, coisas assim. Meu pai, que acompanhava o noticiário, descreveu um personagem muito próximo do que se sabia da imagem do Ramiro da Cartucheira. E junto à narrativa, ele ia vendendo os planos de aposentadoria e pensão. Por volta do meio-dia já tinha fechado uns 10 negócios, recebendo a primeira parcela, que era a sua comissão de vendedor. Nem almoçamos. Pegamos o primeiro ônibus de volta à capital.
Não tive mais notícias sobre Taquaraçu de Minas e o bandido que meu pai teria visto, rsrsrs.
Sobre o Ramiro da Cartucheira, notícias eram de que
ele estaria na região de São Paulo, naquele período. Depois teria sido preso em
Goiás, em 1980...
Comentários
Postar um comentário