Um gosto amargo, de impotência...

 

Tinha meus 14, quase 15 anos, quando trabalhava, já, no “Jornal de Minas”, em Belo Horizonte. Recém-admitido na função de linotipista, me sentia “o máximo”, visto que entrei na oficina daquele jornal, após meu irmão mais velho, o Silézio, conseguir uma vaga com o Cardoso (chefe da oficina gráfica do jornal), para eu aprender o ofício. Até me tornar linotipista, com carteira assinada e tudo, passei por um período de pouco mais que oito meses de aprendizado, limpando banheiros, varrendo oficina e fazendo favores aos funcionários da oficina do jornal, até que pude, primeiro, decorar o teclado com a máquina desligada e, depois, iniciar os primeiros passos no ofício. 

Com pouco mais de seis meses de aprendizado eu já conseguia produzir igual a alguns profissionais mais antigos. Eram em torno de 1.200 linhas-dia, o que exigia um mínimo de 85 mil toques no teclado, durante as oito horas de trabalho. Mas era uma boa profissão, um grau mais elevado em uma oficina tipográfica, à época, e eu gostava do que fazia. Claro que, desde meus seis, sete, anos, quando aprendi a ler antes de ir para a escola, no ‘Suplemento Literário’, da Imprensa Oficial de Minas Gerais, onde meu pai trabalhava, alimentava o sonho de me tornar jornalista. Mas esta é uma outra história. Ainda era oficial gráfico...

E assim, com 14 anos já tinha uma profissão ‘de respeito’, que atraía atenção e, por que não, inveja de alguns rapazes da época. Eu trabalhava em um jornal, exibia a carteirinha do “Jornal de Minas”, com um baita carimbo vermelho, escrito “imprensa”, com muito orgulho. Essa carteirinha do jornal abria portas, garantia acessos e me livrava do incômodo com a polícia nas constantes batidas policiais pelas ruas por onde circulava. Não tinha uma blitz policial que não me parava, afinal, era um varapau magrelo, cabeludo – às vezes deixava os cabelos escorridos, outras, os mantinha no estilo ‘black power’, exibindo o poder negro com o qual sempre me identifiquei, apesar de ter a pele muito branca. 

E nestas abordagens, sempre demorava um pouco para sacar do bolso a carteirinha do jornal para apresentar à polícia, só para experimentar a “cara de bobo do policial”, como contava aos amigos, depois, com satisfação e um pouco de fanfarronice, mesmo. Mas era até divertido, ver o policial chegar ditando ordens: “mãos na parece, perna aberta, documento!” Aí, sempre dava um jeito de não ser o primeiro a ser ‘fiscalizado’, só para que os demais vissem que eu “tinha as costas largas”, como diziam. “Ele trabalha no jornal, polícia não mexe com ele!”, ouvi muitas vezes.

No ano de 1974, o presidente era o general Ernesto Geisel, que sucedera ao Médici. Estávamos em pleno período ditatorial, no ano que marcava a primeira dezena de comando militar no País e os policiais agiam com o máximo rigor e, também, com muitos abusos. Até então tinha ouvido falar muita coisa, mas não presenciara mais que as blitzen, quase sempre abusivas, mas que eu me livrava delas com a carteirinha do jornal. Lembrando que o dono do ‘Jornal de Minas’ era muito ligado aos militares, tinha até sala com o nome dele, segundo me disseram, no DOPS – Departamento de Ordem Política e Social, o organismo de comando do sistema repressivo.

Mas eis que em um dia frio do mês de maio, seguia para o trabalho, pela manhã. Eu descia do ônibus, no centro da cidade, na Avenida Santos Dumont e seguia para o Bairro Santa Teresa, onde era a sede do jornal, na Avenida Francisco Sales, 536. O caminho que eu fazia era passar pelo “túnel” da Praça da Estação, uma passagem que encurtava o caminho, que sai na Rua Sapucaí, e de lá no jornal, eram mais uns poucos quarteirões. Mas a situação que me marcou profundamente, eu vi naquele dia e depois umas dez vezes ou mais, exatamente dentro deste ‘túnel’, da Praça da Estação.

Como disse, era cedinho. Eu e mais um grande grupo de trabalhadores, boa parte deles, operários de obras que se desenvolviam no Bairro Floresta. Já quase no meio do trajeto, encontramos um grupo de policiais, uns 15 a 20 homens, com capacetes e cassetetes e alguns deles com armas tipo carabina, interrompendo o caminho. Os operário, naquela época, levavam seus pertences e as marmitas de comida, em uma mochilas, arredondadas, parecendo sacos. E os policiais começaram a revista. 

Um dos operários entregou a mochila a um policial e ele despejou todo o seu conteúdo no chão. A marmita do rapaz se abriu e o policial deu um pontapé nela, esparramando pelo local, um tanto de macarrão e uns pedaços de angu. Era o que o rapaz tinha para comer no almoço. Ele balbuciou alguma palavra que não foi dita, encheu os olhos de lágrimas, enquanto os militares riam. O rapaz, de cabeça baixa, talvez envergonhado por só ter macarrão – branco, parece que nem tinha tempero – e angu, na marmita... E os policiais rindo. 

E a cena se repetiu algumas vezes, em vários dias, naquelas blitzen, humilhantes para trabalhadores que seguiam seus caminhos para o trabalho. Eu, mostrava a carteirinha, e seguia. Naquela primeira vez,  chorando de raiva, com uma vontade danada de ter nas mãos uma metralhadora... Depois, engolia o choro, mantinha a raiva e ia no meu caminho. 

Mas tanto o choro do primeiro dia quanto a raiva mantida os dias seguintes tinha um gosto amargo, de impotência. Esse era o sentimento daquele rapaz de 14 anos, que ia para o trabalho. E que aprendeu a nunca mais se conformar com as injustiças, com a humilhação feita ao outro...

E esse gosto me vem à boca, ainda, toda vez que ouço alguém pedindo “intervenção militar”.

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