Um encerramento inesperado da Semana Santa!

 

O tema é a Semana Santa, que retrata os passos finais de Jesus Cristo, na terra, encenados por um grupo de artistas do Bairro de Santanense, em Itaúna. A história me foi contada por pessoa que acompanhou todo o ocorrido, mas que pediu para não declinar aqui os nomes reais dos envolvidos. Vamos lá, então, com nomes fictícios das personagens, mas com a história, verídica, segundo a fonte. O fato é que, há muitos anos, no Bairro de Santanense, que recebeu esta denominação em homenagem à fábrica lá ainda funciona, que um grupo de rapazes e moças, muito talentosos, enveredou pelas artes cênicas e fazia muito sucesso. Peças bem ensaiadas, produzidas, eram apresentadas em um espaço improvisado de teatro naquela localidade. Com muito sucesso, sempre, garantem quem acompanhou a tal companhia de teatro. E o ponto alto das apresentações era, sem dúvida a Semana Santa.

Beatas e beatos, fiéis de ir à missa toda semana e fiéis de ocasião, aqueles que se convertem na ‘quaresma’ e retomam o caminho do pecado já no domingo da páscoa, acompanhavam a apresentação com tamanha fé que “até parecia que era realidade”. “Olha lá, o Cristo, tadinho... e aquele soldado espetando ele com a lança... malvado, tinha de ser preso e mofar uns dias na cadeia da Rua da Ponte”, misturava a encenação com à realidade, a menina-moça que acompanhava a encenação. Não se sabe, porém, se era porque ela tinha uma queda pelo ator principal ou se era fé, mesmo, daquelas que fazia ‘sentir na carne’ os flagelos impostos a Cristo. Mas enfim, a encenação era tão bem-feita que se misturava à realidade dos espectadores e até mesmo de alguns artistas, de tão envolvidos que ficavam, nos preparativos.

E, naquele ano, tudo caminhava bem. Nos ensaios o clima era de pré-apoteose. Quando o diretor gritava, “parabéns! Está ótimo!”, algumas pessoas envolvidas nos ensaios chegavam às lágrimas. As roupas estavam em fase final de acertos. O cenário, pronto... a iluminação testada e aprovada. A sonorização, de tão boa, faria transformar o espaço da encenação em “um pedacinho de Jerusalém!”, disse o diretor, entusiasmado. Só um porém: o ator, que representaria o Jesus Cristo, crucificado, tinha os cabelos curtos. Mas a solução estava nas mãos do figurinista ‘Geraldo’. Pessoas séria, responsável, habilidoso, detalhista. E na véspera do espetáculo ele ficou a noite toda conferindo peça por peça da vestimenta, utensílios a serem usados na encenação, as lanças dos soldados, a esponja que seria “molhada no vinagre” para saciar a sede do “cristo”, as sandálias das personagens, os capacetes... eram centenas de peças, e ele reviu, uma a uma, cada uma delas, dezenas de vezes. Nada podia sair errado. Durante o dia, consta que ele teve até um desarranjo intestinal de nervosismo. Nada que um chá de folhas de goiabeira não desse jeito, porém.

Tudo pronto, ensaiado, atores se aprontando, vestindo as roupas e o diretor gritou: “Geraaalllldoooo, cadê a peruca para o Cristo?” O figurinista quase desmaiou de susto. Como ele foi se esquecer daquela peça? Não era possível aquela falha. “Já vou buscar”, disse ele, meio que balbuciando as palavras e saiu às carreiras em busca de uma peruca para o ator que representaria o Cristo crucificado. E no caminho, era Semana Santa, mas não evitou de praguejar o ‘artista’: “aquele ‘fidazunha’, ordinário... por que foi cortar o cabelo? Por que não deixou o cabelo comprido como todo ano, só pra me dar esse trabalho todo”... E caminhando a passos rápidos, foi pensando aonde conseguiria uma peruca. 

“Ah, já sei, na casa da ‘tia Márcia’, ela usa umas perucas e vai ter uma para eu utilizar neste momento de aflição... tomara”, pensou ele. Correu até à casa da tia, fuçou nos armários, procurou até debaixo da cama, nada. Foi aí que a tia apareceu e quis saber "que barafunda é essa minino. Quê que cê tanto procura?”

Já quase chorando, o Geraldo falou: “uma piruca, tia. Aquele danado do ‘Arnaldo’, ordinário, que vai representar o Cristo, cortou o cabelo e eu preciso de uma piruca, urgente”... “Ah, porque não falou rápido. Tem uma que vai servir, tá lá no galinheiro, usei ela para servir de ninho pra ‘maricotinha’ – a galinha preferida da tia Márcia -. Vai lá e pega ela”, rápido”. E lá foi o Geraldo, pegou a peruca, balançou ela um pouco pra soltar uns ramos de capim e saiu em disparada, gritando "brigado tia!"... e chegou no local da encenação, ainda a tempo.

“Calma Arnaldo, para de chilique, não te falei que o Geraldo é competente? Tá aí a peruca. Agora se ajeita que daqui a pouco começa a encenação”, disse o diretor ao ver a peruca entregue pelo figurinista. E completou, para o Geraldo: “você é ótimo figurinista, o mais competente. Por isso te entreguei esta responsabilidade da nossa encenação”. Geraldo saiu dali satisfeito, sorrindo, feliz da vida.  

Tudo certo, tudo ensaiado e abriram-se as cortinas. Foi iniciada a encenação. Música, luzes, falas, passo a passo, os atores e atrizes iam apresentando os últimos passos de Jesus Cristo em Jerusalém, antes da ressurreição. E no público, lágrimas, gritos de revolta no momento da escolha de quem seria o condenado, com muita gente pedindo que Barrabás fosse o escolhido para a crucificação... mas o enredo foi sendo cumprido.

Depois de carregar a cruz, com rápida ajuda de Simão, os soldados levaram o Cristo para a humilhação. Colocaram na sua cabeça a coroa de espinhos, cuspiram nele e a cusparada foi tão real que o Arnaldo olhou para os soldados e viu quem o tinha acertado: “aquele ordinário, ex-namorado da ‘Mariinha’ – aquela menina-moça que tinha uma quedinha pelo ator que representava Cristo na encenação. “Depois ele vai ver”, pensou consigo mesmo o Arnaldo. Mas resistiu firme, tudo pela arte. E ele foi deitado na cruz, braços esticados e a crucificação... mais uma vez o mesmo soldado se aproveitou e até deu uma pancada, real, na mão direita do Arnaldo, para depois falar baixinho: “desculpa, ô Cristo, errei a pancada na madeira”, fazendo uma expressão de ironia e riso, em seguida. O Arnaldo/Cristo, crucificado, mãos e pés amarrados à cruz (para se manter, sem cair), e a cruz foi erguida. Lá estava o Cristo, sob os olhares de toda a população que acompanhava a encenação.

Momento de silêncio e dor. Sonorização e luzes criando o clima de tristeza imensa, e Arnaldo gritou: “Pai, por que me abandonaste?”, pela primeira vez... e os fiéis/espectadores, ali, esperando o ato final, o segundo grito de Jesus e a queda da cabeça, perecendo, ali seria a morte do Cristo-homem, para depois ressuscitar, o Cristo-Filho, que subiu aos céus e está à direita de Deus-Pai. 

Mas eis que o Arnaldo começou a contorcer a cabeça, a mover a boca, tentar soltar o braço... 

O que estaria acontecendo?, se perguntavam todos, incrédulos. Um fiel/espectador ainda arriscou: “deve ser alguma novidade na encenação deste ano, alguma fala, mensagem, que o diretor quer passar ao público...”. 

Mas ele não concluiu seu raciocínio, pois o Arnaldo/Cristo soltou o braço direito, arrancou a peruca da cabeça, se soltou da cruz, pulou ao chão e saiu gritando: “cadê esse Geraldo, filhodeumaégua? Ele me deu uma peruca cheia de piolhos...” 

E o Geraldo saiu correndo, para nunca mais ser visto nas encenações do Bairro de Santanense... Nem o Arnaldo, que foi expulso da companhia teatral... E o final da encenação foi uma gargalhada geral dos menos religiosos e muita benzeção, ‘tisconjuro’, dos mais religiosos. 

E dizem que nunca mais teve encenação da Semana Santa em Santanense... rsrsrsrs. Será?

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